revista amor naturalO que teria feito Carlos Drummond de Andrade separar do corpo de sua obra seus poemas eróticos, só lhes permitindo a publicação póstuma? Recato? Repressão? Vergonha de rapaz itabirano? Mas seria mesmo envergonhado esse poeta tímido que, assim pelas entrelinhas, com aquele jeitinho manso, mineiramente, já se havia revelado íntimo dos segredos de Eros em tantos outros poemas distribuídos pelos muitos livros que produziu? Que motivos teve Drummond para engavetar por tantos anos os poemas de O Amor Natural? É curioso tal ocultamento quando se observa, por exemplo, que, em pleno Século XVI, Camões dedicou todo um Canto de Os Lusíadas à tematização do amor e do erotismo. Mais estranheza causa ainda esse ocultamento pelo fato de nos depararmos com poemas de amor eivados de erotismo em quase todos os livros que publicou. Já em Alguma Poesia (1), seu livro de estreia, o poeta exalta o sabor do amor físico, colocado no mesmo plano que o divino, ao comparar com rezas os suspiros dos amantes.

Lá em baixo/ suspiram bocas machucadas. / Suspiram rezas? Suspiram mansos / de amor. / E os corpos enrolados ainda / e a carne penetra na carne.

Casamento do céu e do Inferno (1)

No mesmo livro, o caráter especial e imprevisível do amor é descrito com a vivência do amante que o poeta deve ter sido – amante apaixonado, envolvido, humanizado na convivência com o ser amado.

    E o amor sempre nessa toada: / Briga perdoa, perdoa briga. / Não se deve xingar a vida, / A gente vive, depois esquece. / Só o amor volta para brigar, / Para perdoar, / amor cachorro bandido trem.

Toada do amor (1)

E submisso ao poder olímpico de Eros:

Mas, se não fosse ele também / Que graça que a vida tinha?
Toada de Amor (1)

Graça consubstanciada no plano real pelo prazer físico, como afirma em um dos poemas de outro livro, apropriadamente intitulado Corpo (2).

    Mais além da pele, dos músculos, / dos nervos, do sangue, dos ossos / recusa o íntimo contato, / o casamento floral, o braço / divinizante da matéria / inebriada para sempre / pela sublime conjunção.

O Minuto Depois (2)

Maravilhoso instante da explosão do gozo, dádiva dos deuses que sempre celebra a delícia do amor.

    (…) cumpra-se com música/ de clavicórdios, clavicímbalos/ espinetas,/ tiorbas, violas “d’amore”, harpas davídicas, sem esquecer o fagote, o oficlide, todos os metais,/ e o saçaricante pinho carioca, mesmo que tais instrumentos não figurem/ ostensivamente no ato.

No entanto, apesar de tão belos poemas quanto esses poderem ser encontrados em grande parte de sua obra, Drummond escreveu aqueles que deixava trancadinhos na gaveta, longe das senhoras circunspectas e das crianças abelhudas, reunidos postumamente em O Amor Natural. No posfácio aos poemas eróticos, Affonso Romano de Sant’Anna observa a possibilidade de alguns leitores se perturbarem, de outros se decepcionarem e de outros reafirmarem a admiração pelo poeta, salientando a natureza inquietante do livro que nos faz pensar os limites (quais?) entre a pornogragia e o erotismo (3).

BRANCO (4) também observa que a discussão do erotismo se acompanha sempre da discussão da pornografia e destaca o caráter moralista do debate. Segundo essa autora, o conceito de pornografia tem sido manipulado nos moldes da imprecisão e da ambiguidade para que possa servir a distintos interesses, em diferentes contextos e épocas, mas sempre ligado a uma necessidade social de controle do comportamento sexual humano e alimentando comercialmente uma verdadeira indústria de produtos do gênero. Aponta ainda a existência de uma forma subliminar de comércio, na qual o prazer obtido no gozo do pornográfico é trocado por valores que interessam à ideologia vigente, em seu aspecto moral, histórico e social:

     É necessário acreditar no domínio e superioridade masculinos para gozar com a mocinha eternamente submissa, ao lado do macho autoritário e insaciável; é preciso aceitar e apoiar a situação de desigualdade social em que vivemos para encontrar prazer nas relações desiguais entre patrão e empregada (…). (4)

 É da moral – um dos principais elementos da ideologia – que a pornografia recebe conotações bastante particulares que a tornam, na verdade, um produto ou resultado de uma sociedade autoritária e castradora, que continua a ameaçar com as penas do inferno ou da excomunhão aqueles que se permitem as delícias do erótico.

    As conotações de pecado e violação, frequentemente acompanhadas de culpa e punição, que transparecem em toda obra pornográfica, são exemplos dessa ideologia preservadora da ordem social. Todo o “desvario” sexual vivido pelas personagens da pornografia só existe enquanto conduta marginal e ilícita, e serve para manter, ordenar os comportamentos legítimos e recomendáveis. (4)

Antes de tecer considerações tão pertinentes e lúcidas, não é sempre que BRANCO (4) consegue ser clara. Em vários momentos de seu texto, percebe-se a tentativa de nos fazer crer que a pornografia é uma criação moralista, isto é, fruto do conservadorismo de alguns; e não uma criação moralizante, ligada a mecanismos de controle social que, de fato, pretendem negar às pessoas o livre (e normalmente subversivo) exercício da sexualidade. Neste ponto, seu texto é paradoxal, o que pode servir àqueles que, também vítimas da manipulação ideológica que engendra o pornográfico, não conseguem reconhecer o erotismo como uma dimensão da sexualidade que, ao negar o controle do sexual, antes afirmando a sua fruição como um direito, nada tem de pornográfico. Nessa ambiguidade permaneceram Affonso Romano de Sant’Anna e também a autora referida, em alguns pontos do seu discurso. Até que não suportando a tensão, ela declara que é nítida a diferença entre uma revistinha de sacanagem e qualquer um dos romances do Marquês de Sade; diferença esta assumida corajosa e louvavelmente mais adiante: ao contrário do erotismo, que corresponde a uma modalidade não utilitária de prazer, exatamente porque propõe o gozo em si, a pornografia estará sempre vinculada a outros objetivos – o prazer depende do pacto com a ideologia que ela veicula (4). E a autora segue afirmando que numa sociedade hierarquizada e castradora não há lugar para a prática sexual erótica – fruição da sexualidade livre de culpa e exercitada num plano de transcendência tal que se poderia quase nomear estético – mas, em vista da inegável necessidade de reproduzir a espécie, ainda se concede à atividade sexual um lugarzinho ideológico no qual essa atividade, se escapar de se reconhecer pornográfica, haverá de se reconhecer pecaminosa. Mas também, se não fosse assim, ninguém perderia seu tempo trabalhando horas a fio para aumentar o lucro de outro, e com certeza reservaria muito do seu dia para o prazer e para o descanso – e não teria sido assim o paraíso antes do pecado original?

Tomemos o Kama Sutra (5), hino ao prazer sexual como direito de todo aquele que vivencia uma existência plena, bíblia do amor físico em cujas páginas se ensinam os segredos do namoro e da iniciação amorosa, num plano absolutamente erótico. Cabe observar que Platão (6) também ressalta a qualidade do erótico sobre o pornográfico, ao identificar dois tipos de amor: o popular, ligado aos interesses materiais, inclusive financeiros e políticos; e o celestial, ligado ao sentimento e à sedução advinda da vida contemplativa, da busca de conhecimento filosófico. Do mesmo modo, no Kama Sutra, a sedução é associada ao conhecimento, à delicadeza e ao enamoramento.

Ainda de acordo com o celebrado manual hindu, as relações sexuais, dependendo do homem e da mulher, exigem a aplicação de certas regras ensinadas pelas escrituras sagradas. A não-utilização de meios especiais que vemos nos seres brutos é devida ao fato de que os animais não encontram empecilhos pela frente e principalmente porque seu encontro e união não são precedidos por qualquer espécie de pensamento. (5)

Assim é que vemos Drummond, do mesmo modo, afirmar a sacralidade da lei do amor.

    Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas / detêm a mão ansiosa; devagar. / cada pétala ou sépala seja lentamente/ Acariciada, céu; e a vista pouse, / Beijo abstrato, antes do beijo ritual, / Na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.

Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas (3)

 Deus celebrado por gregos e romanos, o amor sempre teve um imenso poder sobre os homens. Platão, por exemplo, o considerava tão poderoso que a ele dedicou um de seus mais belos diálogos, o Banquete, no qual afirma ser o amor uma espécie de gênio a quem cabe levar aos deuses o que vai dos homens e trazer aos homens o que vem dos deuses, insuflando no amado e no amante o desejo de se completarem um ao outro, espiritual e fisicamente, para alcançarem a totalidade original do ser, descrita numa antiga lenda sobre o andrógino. Drummond também reconhece no amor esse poder.

    Amor pois que é palavra essencial / comece esta canção e toda a envolva / amor, guie o meu verso, e enquanto o guia, / reúna alma e desejo, membro e vulva. / Quem ousará dizer que ele é só alma?/ Quem não sente no corpo a alma expandir-se / Até desabrochar em puro grito/ De orgasmo num instante de infinito?/ O corpo noutro corpo entrelaçado, / Fundido, dissolvido, volta à origem / Dos seres, que Platão viu completados: / é um, perfeito em dois; são dois em um.

Amor – pois que é palavra essencial (3)

Existem aqueles que, em nome do puritanismo – a grande fonte do pornográfico – supõem-se com razão de excluir palavras da literatura, palavras que seriam, por assim dizer, mal comportadas, imorais e sujas, entre as quais se encontram as que descrevem zonas erógenas ou os órgãos genitais humanos, como se tais palavras, vale dizer, tais regiões do corpo, não fossem fontes de beleza. Pornográfico equívoco cometem os que desse modo pensam, já que a poesia é a arte de encantar palavras, acolhendo-as sem restrição e ampliando-lhes o sentido, como já autorizava Aristóteles, em sua Poética. De maneira que Drummond, com a luz do talento que possuía, contextualiza poeticamente (por que não dizer eroticamente?) palavras como clitóris, coito, penetração, criando um dos melhores poemas de O Amor Natural.

    Ao delicioso toque do clitóris, / já tudo se transforma, num relâmpago. / Em pequenino ponto desse corpo, /A fonte, / O fogo / O mel se concentraram. / E prossegue e se espraia de tal sorte / Que, além de nós, além da própria vida, / Como ativa abstração que se faz carne, / A ideia de gozar está gozando. /

    E num sofrer de gozo entre palavras, / Menos que isto, sons, arquejos, ais, / Um só espasmo em nós atinge o clímax: / É quando o amor morre de amor, divino.

Amor – pois que é palavra essencial (3)

É de se observar a predominância da visão erótica nos poemas de O Amor Natural, provavelmente enriquecida pela suavidade lírica manifestada em outros livros da vasta obra drummoniana.

     Sob o chuveiro amar, sabão e beijos, / Ou na banheira amar, de água vestidos, / Amor escorregante, foge, prende-se, / Torna a fugir, água nos olhos, boca / dança, navegação, mergulho, chuva, / Essa espuma nos ventres, a brancura / Triangular do sexo – é água, esperma, / É amor se esvaindo, / Ou nos tornamos fonte?

Sob o chuveiro amar (3)

 Carlos Drummond de Andrade, assim como todos somos, era um ser historicamente determinado, apesar da sensibilidade com que interpretou a existência e o mundo que o rodeava. Determinado pelos costumes e pela moral da sua sociedade. Para um homem nascido em 1902, até que, pela poesia, conseguiu questionar muitos dos valores da sua cultura, mas não pôde se despojar de todos eles, o que implicaria em prejuízo de sua própria identidade. Portanto, não é justo exigir do homem que mantivesse o poeta num contínuo exercício de qualidade literária ao abordar temas relativos à sexualidade, sem que pecasse em nenhum momento. Educado por uma moral repressora e punitiva, ele também resvalou para a pornografia em alguns poemas de O Amor Natural, poemas de densidade literária bastante questionável, nos quais o poeta não consegue alcançar o erótico, deixando a sua escrita presa à esterilidade do pornográfico, além de, muitas vezes, tornar-se bombástico e prosaico. Talvez por isso Affonso Romano de Sant’Anna tenha feito a advertência de que alguns poderiam se decepcionar com o livro.

Contudo, fica-nos com a imagem de um Drummond que se concedeu o mergulho em busca da luz do erotismo, em cujo banquete o céu se oferta aos homens.

Quantas vezes morremos um no outro, / no úmido subterrâneo da vagina, / nessa morte mais suave do que o sono: / a pausa dos sentidos, satisfeita. / Então a paz se instaura. A paz dos deuses, / estendidos na cama, qual estátuas / vestidas de suor, agradecendo/ o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
Amor – pois que é palavra essencial (3)

 
1. Andrade, Carlos Drummond de. Alguma Poesia. In: Obra Completa. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1988.
2. Corpo. In.: op, cit.
3. O Amor Natural. Rio de Janeiro, Record, 1992.
4. Branco, Lúcia Castello. O Que É Erotismo. 2ª ed., São Paulo, Editora Brasiliense, 1987.
5. Vatsyayana. O Kama Sutra – Aforismo sobre o Prazer. Trad. David Jardim Jr. Rio de Janeiro, Editora Tecnoprint, 1988.
6. PLATÃO. O Banquete. Trad. e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge Paleikaf e João Cruz Costa. São Paulo, Abril Cultural, 1979, col. “Os Pensadores”.

 
 Lenita Estrela de Sá é escritora.

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