revista interacaoAcima das paixões e do sentimentalismo. Acima da inveja e da ambição. Feliz, porque sereno. Assim Ricardo Reis foi criado por Fernando Pessoa.

A grande questão da obra de Reis é viver a existência com prazer, que o tempo é eterno, mas a vida, breve. Desse modo, também se pensava no jardim de Epicuro, em Atenas, por volta do Séc.III a.C.

Desdenhado por muitos dos seus contemporâneos, criticado abertamente por Plutarco, acusado de não conhecer os sistemas de Platão e de Aristóteles, reprovado por abrir seu Jardim às mulheres e tido como guloso e devasso, Epicuro proclamava ser o prazer o bem supremo da felicidade humana, estágio maior da sabedoria ao qual se chega por meio da serenidade e do domínio de si mesmo. É preciso esclarecer, contudo, que a noção epicurista de prazer, embora contemple a dimensão física deste, transcende-a na afirmação de que o verdadeiro prazer é alcançar a felicidade, mantendo o instinto sob controle da racionalidade.

Quando dizemos, então, que o prazer é fim, não queremos nos referir aos prazeres dos intemperantes ou aos produzidos pela sensualidade, como creem certos ignorantes, que se encontram em desacordo conosco ou não nos compreendem, mas ao prazer de nos acharmos livres de sofrimentos do corpo e de perturbações da alma. (1)

A admiração de Ricardo Reis por Epicuro é explícita, a ponto de o poeta sentir a alma aquecida pela excelência da doutrina do mestre.

(…) Aqueço-me trêmulo / a outro sol do que este. / O sol que havia sobre o Pantheon e a Acrópole / o que alumiava os passos lentos de Aristóteles falando. / Mas Epicuro melhor / me fala, com a sua cariciosa voz terrestre / tendo para o deus, / uma virtude também de deus, / sereno e vendo a vida / à distância a que está. (2)

O poeta, como o filósofo, é sábio e proclama que inutilmente parecemos grandes, reconhecendo – como o mestre – que o homem é fraco, quase ínfimo, face à imensidade do Universo.

Antes de nós, nos mesmos arvoredos / passou o vento… / passamos e agitamo-nos debalde, / não fazemos mais ruído no que existe / do que as folhas das árvores / ou os passos do vento. (2)

O estado da bem-aventurança epicurista consiste em alcançar a imperturbalidade ou ataraxia face às adversidades da existência e a negação da dor ou aponia, tendo o próprio filósofo suportado sofrimentos físicos atrozes. Tais conceitos se sustentam numa concepção materialista do mundo, que reconhece a infalibilidade das leis naturais, contra as quais é inútil lutar, pois é certo que o homem não passa de um aglomerado de átomos que se dissolverão com a morte.

Nem a posse das riquezas nem a abundância das coisas, a obtenção de cargo ou o poder produzem a felicidade e a bem-aventurança; produzem-na a ausência de dores, a moderação nos afetos e a disposição de espírito que se mantenha nos limites impostos pela natureza. (1)

Porque a morte é inevitável, mas vale para o poeta passar a vida sem desassossegos grandes, livre dos desejos angustiantes de glória e de poder, pois, quando chegarmos aos Infernos – reino de Plutão – teremos que ajustar contas com Minos, seu mais severo juiz. (3)

Que trono te querem dar / que Átropos to não tire?

Que louros que não fanem / nos arbítrios de Minos? (2)

A moderação nos afetos, de que nos fala Epicuro, tem seu correlato na falta de desassossegos que Ricardo Reis recomenda, sublinhando a importância da serenidade para a felicidade do homem, que deve dar aos afetos antes uma dimensão ética – como a da amizade – que natural, como a do prazer físico derivado do amor. Este, pelo contrário, segundo Lucrécio, grande discípulo de Epicuro, é fonte de tensão e de angústia, que, por sua vez, é portadora de males físicos e morais; em suma, é insensatez incompatível com a imperturbabilidade do sábio.

Por mais bela que seja a bem amada, há no entanto, além dela, outras mulheres; não vivíamos nós sem ela anteriormente? No fim de contas, não é mais do que uma criatura humana. Mas o apaixonado, chorando, adorna de flores e perfuma de unguentos o limiar e as ombreiras da porta que lhe fecharam, imprime-lhe beijos quando entra; porém, se uma pequena corrente de ar vem incomodá-lo, logo busca pretexto para se ir embora e amaldiçoa a loucura de ter concedido a uma pessoa mortal tanto poder sobre ele. (1)

Ricardo Reis compartilha essa compreensão de que o amor se inclui entre as coisas incompatíveis com a bem-aventurança, de vez que é fonte de desassossego, advindo da ilusão e dos excessos que gera.

A glória pesa como um fardo rico, / a fama, a febre, /

o amor cansa, porque é a sério e busca, / (2)

A noção do passar do tempo fundamenta mitologicamente a concepção greco-romana do destino (3). Os antigos cultuavam, ente outras, divindades relacionadas ao destino, as Horas e as Parcas. As Horas têm a missão especial de abrir as portas ao sol, quando este se prepara para realizar seu curso e têm como características serem muito lentas, sucederem-se sem jamais invadir o terreno uma da outra e trazerem sempre algo de novo. As Parcas são três – Cloto, Láquesis e Átropos – e têm a missão de traçar a sorte do homem no momento em que nasce: a primeira fia o destino, a segunda marca os acontecimentos e a terceira corta o fio.

Interessado em libertar o homem do medo dos deuses e do temor da morte, Epicuro explica que aqueles são tão perfeitos que não se misturam com os homens, vivendo em perfeita serenidade nos espaços que separam os mundos; e que a morte nada mais é que o extremo de um fatal percurso evolutivo, traçado por leis naturais, não havendo, pois, motivo algum para temê-la, porque não existe enquanto o homem vive e este não existe mais quanto ela sobrevém (1).

Dentro desse materialismo finalista, é que se compreende o prazer como o bem supremo da existência. O prazer – associado à urgência de viver o momento que passa – redime o homem de sua inexorável condenação à finitude, reservada a todas as coisa do mundo. Tal concepção também se apresenta nas odes de Ricardo Reis.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. / Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. / Mais vale saber passar silenciosamente / e sem desassossegos grandes. (2)

O poeta tem consciência absoluta da necessidade de gozar o momento, pois o tempo breve que passamos aqui é limitado, no início e no fim, pela escuridão do desconhecido – isso sim, inexplicável por leis naturais.

As rosas amo dos Jardins de Adônis, / essas volucres amo, Lídia, rosas, que em nascerem, / em esse dia morrem; / a luz para elas é eterna, porque / nascem nascido já o sol, e acabam / antes que Apolo deixe /o seu curso visível. Assim façamos nossas vidas um dia, / inscientes, Lídia,voluntariamente / que há noite antes e após / o pouco que duramos. (2)
 * Lenita Estrela de Sá
(1) Epicuro – Antologia de Textos. São Paulo: Abril Cultural, 1980, Col. Os Pensadores.
(2) Reis, Ricardo. Odes. Obra Completa de Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.
(3) Ménard, René. Mitologia Greco-romana. São Paulo: Opus Editora, 1991.
Lenita Estrela de Sá é escritora.
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Créditos da imagem:
Pintura de Rubens, “Vênus e Adônis”, licenciada por Creative Commons, disponível em https://www.metmuseum.org/toah/works-of-art/37.162

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